Introdução


A humanidade atravessa, nos tempos atuais, uma fase do processo evolutivo muito significativa desde a área tecnológica à de saúde, pois se aproxima do século 21. Entretanto, a qualidade de vida diária tem sido muito intensa e corrida e, por causa disso, alguns valores prazerosos do bem-viver não têm sido bem aproveitados, os quais seriam deveras preciosos para a saúde físico-mental e social.


Um dos critérios fundamentais para uma vida mais saudável e feliz, refere-se ao lazer que advém do dever cumprido. Contudo, devido à busca desenfreada pela sobrevivência, olvida-se aquele que sustenta e harmoniza os demais: o estar na natureza.


Crescer apreendendo tudo que nos envolve é um hábito que se constrói desde a tenra idade. Dessa forma, estando em contato com a natureza, observando-a nos seus pequenos detalhes, é que se aprende a incorporá-la como parte da vida, porque dela se é peça fundamental e integrante, tornando-se um adulto consciente do amor que deve ao meio-ambiente.


Portanto, assim pensando, mas também agindo, em uma época que reina a globalização, poder-se-á afirmar e viver a máxima: EU NO TODO E O TODO EM MIM, expressando o aspecto interativo sistêmico autêntico. Todavia, como atingir este objetivo?


O propósito deste trabalho é demonstrar, de maneira simples e concreta, o procedimento de bem-viver para com a criança, principalmente a institucionalizada. Muitas delas quando chegam na entidade já tiveram um passado muito sofrido e tornar a sua existência com melhores perspectivas, resgatando a esperança de dias mais prazerosos, foi o objetivo deste projeto: um sistema psicopedagógico preventivo de aprendizagem, estruturado em valorização da vida, que já vem colhendo frutos há alguns anos, criando pessoas física e mentalmente mais saudáveis.


Objetivos e Conceitos


Deseja-se expor novamente o sistema Brinquedoteca, que congrega diversas oficinas, não significando um espaço delimitado fisicamente apenas, mas que encerra um conjunto sistêmico de conceitos, espaços e momentos distintos, exercendo a função psicopedagógica preventiva da aprendizagem através do brincar, dos brinquedos e do meio-ambiente (Gimenes, 1998b – Psicopedagogia, 17(46): 44-52, 1998).


Em destaque, no presente projeto, estão as partes integrantes deste complexo: o Cantinho de Aventuras - um espaço de área verde com um pouquinho de tudo do reino vegetal, em volta da modesta casa do zelador da entidade, e a Oficina de Artes Plásticas em Sucatas - onde tudo que é supostamente lixo vira luxo, cuja proposta é identificar a função estimularizadora da convivência com a natureza sobre a imaginação, que tem o papel de enriquecer a criatividade nas diversas expressões artísticas (expostas nas fotos anexas somente a arte do desenho e pintura e a literária).


Convém recordar, ainda, que a atividade do brincar é considerada


. . . uma função psicopedagógica construtivista, processo estruturante (auto-regulador), porque procede de uma estrutura dinâmica (o organismo infantil x objeto), em que cada etapa de ação é, ao mesmo tempo, superação e conservação da anterior (Piaget, 1967; Gimenes, 1996 e 1998b ).


O conhecimento, um processo que resulta da interação entre o organismo e o meio, interação . . . que é ativa e dinâmica, pois o ser não só age e reage sobre o meio, como também o meio sofre e exerce pressão sobre o sujeito (Piaget e Inhelder, 1966; Gimenes, 1996 e 1998b); podendo-se considerar meio-ambiente tudo o que há em sua volta (não somente o que é natural): os adulto, outras crianças, os objetos etc.


Método


Este projeto é feito em uma instituição filantrópica de São Bernardo do Campo, que atende os filhos de lares de estrutura afetiva e sócio-econômica mínima. São 294 crianças, sendo 18 em berçário, 74 até 5 anos e 11 meses aproximadamente, e 202 de 6 a 12 anos e meio, de ambos os sexos. E lá esse sistema de brinquedoteca já existe há 18 anos.


A brinquedoteca funciona com vários espaços-oficinas destinados para fins específicos e alternativos com suas respectivas monitoras (jogos em geral, cantinhos da casa, artes plásticas e sucatas, leitura e dramatização etc), como também com um teatro, playground, espaço-verde e quadras poli-esportivas. Porém, além dos recursos psicopedagógicos que permitem a construção do conhecimento neste sistema, há a facilitação para a arte (com oficina própria, já há dez anos) para as crianças desde os três anos de idade (Anexo A). E nestes ambientes . . . a criança simboliza da maneira que melhor lhe apraz (Gimenes, 1998b , p. 45).


Isso porque ao término do período sensório-motor, entre um ano e meio e dois, surge uma função fundamental para a evolução das condutas ulteriores, o Simbolismo. Piaget esclarece que é representar alguma coisa por meio de um ‘significante’ (‘é uma parte ou um aspecto do significado’), diferenciado na linguagem, na imagem mental, nos gestos etc.
(Piaget, 1945, p. 129; Gimenes, 1996 e 1998b ).


Dessa maneira, a criança em contato com seu meio, paulatinamente, incorpora-o em seu sistema de significação de maneira objetiva e também, simbolicamente. Assim, a idéia de ecologia que se pretende que a criança construa em si, deve ser iniciada desde o berço e receber uma força maior pelo exemplo como modelo (fotos – Anexo B), pois, a partir daí, o ser se prepara interiormente para atitudes posteriores de respeito e cuidados para tudo à sua volta, na medida que recebe o mesmo dos que a cercam (1932). Porque desde cedo, mesmo sem conceituar, já terá essa noção de que tudo está interligado, isso se a permitirem participar e falar (Vygotsky, 1962 a).


Devido a esse aspecto, a criança tem a liberdade, tanto quanto possível, neste projeto institucional, de expressar oralmente o que pensa, como também, é estimulada a verbalizar quaisquer atividades ou em momentos diversos, aquilo que elaborou prática ou por representação. Há até, entre os mais velhos, entre seis e 12 anos, um sistema político de eleição do representante, um porta-voz, e sua comitiva: o prefeito mirim da entidade, cuja gestão é anual.  


Assim, durante a semana, após desbravar o Espaço-Verde de Aventuras, a criança tem a oportunidade de criar e redescobrir, através da arte na oficina, de diversas maneiras, seus sonhos e vivências, reelaborando o mundo que gostaria (Figs. 3 a 5  - Anexo B). 


Anexo A


figs
. 1 e 2: Crianças do maternal da creche; Vista parcial da oficina de artes.


Anexo B


figs.
3 a 5: Profissionais em curso dado pela autora
.


Anexo C


figs.
6 e 7: Prefeito Mirim e comitiva, ano de 1998.


Anexo D


figs
. 8 a 12: Crianças do lar-escola no Espaço Verde de Aventuras Brogotá


 Anexo E


figs
. 11 e 12: Desenhos sobre a ida ao Espaço-Verde de Aventuras Brogotá.  (Taís, 8 anos e Israel, 5 anos)


Anexo F


figs.
  13 e 14: Desenhos sobre a Família com a presença da natureza. (Juliana, 8 anos e Daniela, 9anos)


Anexo G


figs.
  15 e 16: Desenhos (Diego, 6 anos) e Redação (Simone, 10 anos) sobre a Oficina de Artes Plásticas e Artesanato em Sucata da Brinquedoteca.


Direitos reservados à UniaaL/ Estácio de Sá, RJ e
Beatriz Piccolo Gimenes, 1999-2000.


Resultados e Análises


Independentemente do aspecto de análise projetivo, pelos desenhos observam-se os sentimentos e pensamentos infantis irradiados pelas cores, tonalidades ou formas de uso dos materiais. O importante, é que aquele momento é só seu, podendo reinar em seus castelos de fantasias (Figs. 6 e 7 – Anexo C). 


Esclareceu-se já, em trabalho anterior (Piaget, 1945; Gimenes, 1998b, p. 46), que a


. . . atuação do sujeito no meio-ambiente através dos jogos simbólicos, assinala o início da representação, em seu desenvolvimento cognitivo, que se tornam importantes estimuladores do movimento e do pensamento. Isso permite que o símbolo se integre às estruturas orgânicas e mentais para atos posteriores mais complexos, reforçados pela assimilação representativa de toda a realidade ao Eu, sendo instrumentos das assimilações lúdicas
.


Assim, as atividades expressadas pela arte desde a tenra idade no desenvolvimento infantil, favorecem a expressão dos jogos de imaginação, sendo um meio formador e reforçador de conceitos e valores que se desejam construídos ou reformulados na criança, isto é, hábitos saudáveis, podendo-se, então, verificá-los em suas obras expressas.


É possível sentir a força da vivência experimentada no pequeno espaço verde da instituição, um fundo de quintal de antigamente, nas expressões gráficas infantis, em detrimento às situações atuais, onde a casa onde moram é um barraco ou uma rude alvenaria, geralmente, cujo terreno divide parede-meia com outra moradia, e assim por diante, impedindo-se o convívio das comunidades com os reinos mineral, vegetal e animal a cada ano que passa progressivamente.


A imaginação é crescente na mente fértil da criança. A admiração e o respeito pela natureza são decorrentes da interação pessoal com o seu meio. E em todas as representações infantis ela surge exuberante e ampliada. É a flor no vaso sobre a mesa em um desenho livre; é um jardim florido no desenho da família (mesmo que a realidade no lar não seja essa), porque se aprende a observar sob uma ótica diferente o mundo à sua volta: a da experiência própria - que nem a melhor foto da revista ou de um vídeo, não consegue substituir depois de ter estado lá!...


Dessa forma, as poucas árvores reais existentes ganham muitas irmãs no papel. O colorido se multiplica e se adicionam inúmeros matizes às cores verdadeiras. E é notória a diversidade de caracteres minuciosos presentes que os aos olhos dos adultos passariam desaparecidos – e, então, o reino dos insetos torna-se gigante! (ver nos desenhos: caramujos, o formigueiro, as abelhinhas e borboletas etc).Tanto as aves que ali visitam, como a simples casa do zelador, ganham uma aparência relevante e bela nos diversos trabalhos. E muito significativo, para finalizar, é quando se sente o encanto dos pequenos por aquele pedacinho do mundo através de suas singelas redações, pois qualquer um acalma o coração e descansa a alma à sombra das folhagens que bailam a mando da brisa suave, depois que as ler.


Portanto, toda criança assim age porque tem o adulto como modelo, orientando-a e destacando a beleza e a função desde a mimosa violeta, que nasce debaixo dos grandes arbustos, até à majestosa orquídea, que parasita a altiva árvore que a acolhe.


Conclusão


Assim, os conceitos e valores que se desejam estruturados na criança têm que ser vividos pelos adultos, atuando pelo exemplo, de maneira que ela os construa alicerçados sobre o respeito mútuo entre iguais. E, como diz Macedo (1996) parafraseando Piaget (1930): se construídas as normas para a criança seguí-las, que as sejam a partir dela com os adultos, pois o contrário é condenável, estaria em situação de injustiça e autoritarismo. E como reforça Vygotsky (1962b, p. 28) em A Formação Social da Mente, os meios que facilitam a estrutura comportamental pela construção de conceitos, experimentalmente, consistem em dois fatos importantes:

1.   A fala da criança é tão importante quanto a ação para atingir um objetivo...
2. Quanto mais complexa a ação exigida pela situação e menos direta a solução, maior a importância que a fala adquire na operação como um todo.

. . . as crianças resolvem suas tarefas práticas com a ajuda da fala, assim como dos olhos e das mãos. Essa unidade de percepção, fala e ação, que, em última instância, provoca a internalização do campo visual, constitui o objeto central de qualquer análise da origem das formas caracteristicamente humanas de comportamento
(Figs. 8 a 11 – Anexo D).


Sugere-se esse procedimento como recurso preventivo em nível primário de saúde mental do desenvolvimento infantil.


Referência Bibliográfica


GIMENES, Beatriz Picolo (1996) O jogo de regras nos jogos da vida: sua função psicopedagógica na sociabilidade e afetividade em pré-adolescentes institucionalizados. Dissertação (Mestrado). Universidade Metodista de São Paulo, 1996. 198 p.


–––––––– (1998 a) O jogo de regras nos jogos da vida: sua função psicopedagógica na sociabilidade e afetividade em pré-adolescentes institucionalizados. Resumo. In: Congresso Interdisciplinar Sobre Aprendizagem: Educação X Avanços Científicos E Tecnológicos No Terceiro Milênio, 2, Passo Fundo, 19 a 22 ago. 1998. Anais. Passo Fundo, UPF.


–––––––– (1998 b) Projetos que deram certo! Brinquedoteca: o mesmo princípio em duas realidades; Relato de experiência. In: Psicopedagogia: revista da Associação Brasileira de Psicopedagogia. S. Paulo, 17 (46): 44-52.


MACEDO, Lino de (1996) O lugar dos erros nas leis ou nas regras. In: –––––––– (org.) Cinco estudos de educação moral. São Paulo, Casa do Psicólogo, p. 179-209. (Psicologia e Educação)


PIAGET, Jean (1945) A formação do símbolo na criança; imitação, jogo e sonho, imagem e representação. Trad. Álvaro Cabral e Christiano Monteiro Oiticica. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 1978. 370 p.


–––––––– (1967) Biologia e conhecimento: ensaios sobre as regulações orgânicas e os processos cognitivos. Trad. Francisco M. Guimarães. Petrópolis, Vozes, 1973. 423 p.


–––––––– (1932) O julgamento moral na criança. Trad. Elzon Lenardon. São Paulo, Mestre Jou, 1977. 356 p.


–––––––– (1930) O procedimento da educação moral. Trad. Maria Suzana de Stefano Menin. In: MACEDO, Lino de (org.) Cinco estudos de educação moral. São Paulo, Casa do Psicólogo, 1996. p. 1-36. (Psicologia e Educação)


––––––––; INHELDER, Bärbel (1966) A psicologia da criança. Trad. Octávio Mendes Cajado. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1989. 135 p.


VYGOTSKY, L. S. [1962b] O instrumento e o símbolo no desenvolvimento da criança. In: . MICHAEL COLE at alii (org.) A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 4. Ed. Trad. José Cipolla Neto, Luis Silveira Menna Barreto, Solange Castro Afeche. São Paulo, Martins Fontes, 1991. 168p. (Psicologia e Pedagogia)


VYGOTSKY, L. S. [1962a] Um estudo experimental na formação de conceitos. In: MICHAEL COLE at alii (org.) Pensamento e linguagem. 3. ed Trad. Jeferson Luiz Camargo. São Paulo, Martins Fontes, 1991. p.  (Psicologia e Pedagogia)


INSTITUIÇÕES:
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